E depois do avião?

Quando o avião da Malásia foi abatido perdi toda a vontade de viajar para aqueles lados. O que, devo admitir, era uma coisa que estava nos meus planos. Provavelmente irá continuar, mas só quando me esquecer que este foi a segunda vez que alguma tragédia aconteceu com um avião malaio num espaço de tempo muito pequeno.

Agora que penso nisso, o facto é que o meu problema não devia ser com aviões malaios, ou sequer com aviões. O meu problema devia ser exactamente com quem o mandou abater ou, no caso do primeiro, com quem o fez desaparecer dos radares e estar algures no mundo onde ninguém o consegue descobrir.

Por isso mesmo é que eu digo que não sei se deva ter medo de ir à Malásia, de andar de avião ou se deve temer o mundo onde vivo e a humanidade da qual faço parte. E diga-se que estou cada vez mais inclinada para esta última hipótese.

Quando quase 300 pessoas morreram, os dois países envolvidos estão a focar as suas atenções em culparem-se mutuamente e em continuar as suas ofensivas, em continuara sua guerra. Esquece-se que as famílias das 298 pessoas que mataram quando abateram o avião (não importa quem o fez, importa que o fizeram), continuam a queres uma justificação para o que aconteceu e, pior que isso, parte dessas famílias continuam a querer os restos mortais dos seus familiares resgatados o que é impossível de acontecer com todo o alvoroço de tiros aviões abatidos naquela zona.

Esta minha reflexão parecerá, com alguma certeza tardia, mas parece-me oportuna agora que um novo pacote de sanções foi aplicado à Rússia. Sou defensora da ideia ocidental de que é a Rússia de Putin quem está a alimentar as ideias e o arsenal dos separatistas, mas tenho as minhas dúvidas sobre a eficácia este novo pacote da EU, cuja intervenção quase se assemelha com a intervenção da TOIKA na economia portuguesa.

É certo que a economia russa irá estar sobre muita pressão, e as minhas dúvidas sobre a eficácia destas medidas existe porque, eu penso existem agora duas hipóteses em cima da mesa: ou a Rússia cede e abre o jogo deixando de alimentar esta guerra, ou a Rússia não cede e pode estar à porta um conflito ainda maior. Como não me parece que a primeira hipótese seja viável, ou pelo menos não consigo imaginar uma declaração do Putin a dizer que o seu governo é em parte responsável pela situação no leste da Ucrânia.

E com o leste europeu em guerra e Gaza em guerra, diria eu que a situação é demasiado preocupante!

A propósito de liberdade

Muito se tem falado estes dias acerca da liberdade. A liberdade conquistada na revolução de Abril e aquela que, agora, muitos dizem ser exagerada.

Em 40 anos passámos de uma situação em que a censura não deixava que o povo se expressasse para a realidade actual em que todos dizem o que pensam, tantas vezes sem cuidado com quem esta do outro lado ou sem pensar em quem pode ficar lesado.

Talvez seja esta a razão pela qual aqueles que, durante tanto tempo viveram oprimidos e assistiram a toda esta enorme reviravolta, sintam que passámos do oito para o oitenta.

A grande questão é que não foi só a liberdade que mudou. A própria mentalidade das pessoas também sofreu alterações com a abertura ao mundo global. A cada dia que passa ficamos mais liberais, mais cidadãos do mundo do que do nosso próprio país, mas ao mesmo tempo cada vez mais vulneráveis. E, quer queiramos quer não, esta mudança na forma de ver e de pensar das pessoas influencia a forma como a cultura é transmitida, a forma como alguns valores são passados e outros vão caindo no esquecimento.

E liberdade está muito relacionada com essa transmissão de conhecimento de geração para geração, porque a liberdade de cada um termina quando a liberdade do outro começa. E a percepção de que estamos a chegar ao nosso limite é influenciada pelos valores que não são transmitidos e que influenciam a forma como encaramos o mundo no geral e cada situação em particular.

Liberdade pressupõe respeito. Respeito pelos outros e respeito por nós próprios. Por isso eu pergunto-me, vivemos com liberdade a mais ou com respeito a menos?

Desculpas compulsivas

O ser humano é uma autêntica máquina de gerar desculpas para tudo e mais alguma coisa.

É tão fácil fazê-lo que desculpamo-nos a toda a hora. Fazemo-lo pelos mais diversos motivos, desde justificar o porquê de querermos ou não fazer algo até justificarmo-nos a nós próprios o porquê do nosso comportamento desviar do que consideramos certo ou aceitável.

Se pensarmos bem é tão comum que ninguém acha estranho ou errado. Desculpamo-nos com os nossos pais porque chumbámos todas as cadeiras mas a razão pela qual tal aconteceu foi os exames terem sido demasiado difíceis ou convencemo-nos a nós próprios que podemos comprar aquela camisola quando temos plena consciência de que ainda vamos no meio do mês e já tivemos que pedir um adiantamento da mesada do mês seguinte. E o simples facto de ser tão banal e de toda a gente o fazer implica que pôr as culpas em algo ou alguém faça sentido e ninguém critique. E porque razão alguém deveria criticar quando nós próprios o fazemos? Neste momento estou aqui a digitar este texto e a tentando que isto me sirva de justificação para não estar a fazer o que era suposto.

Mas porquê tantas desculpas e tantas necessidades de justificar os nossos comportamentos? Na minha opinião tudo isto não passa de uma necessidade de ser aceite. Quero ser aceite naquele grupo ao qual gostava mesmo de pertencer mesmo que não cumpra os requisitos de entrada, porque para entrar preciso de fazer alguma coisa que eu não quero. Então a forma mais lógica de tentar entrar mesmo assim é arranjar um motivo para me poder desculpar o facto de não ter feito o necessário. É adiar a consciência de que não trabalhei o suficiente ou não tenho o que preciso.

Na realidade toda esta questão de desculpas e justificações não passa de algo que fazemos “para inglês ver” porque conhecemos sempre os nossos verdadeiros motivos, mesmo que os tentemos esconder. Todos sabemos que a decisão final nos cabe sempre a nós, porque mesmo que digamos que fiz quilo porque a minha mão me obrigou ou que não fui ali porque o meu pai não me deixou não passam de meras desculpas. Porque quando queremos realmente algo arranjamos uma maneira de o conseguir e quando não queremos, aí sim, arranjamos desculpas. E a realidade é que a última palavra é sempre nossa!